O GRANDE DIVÓRCIO
O grande divórcio acontece não quando o homem se separa do homem, mas quando se afasta de si mesmo.
Foi Bentinho quem disse: “Se faltassem os outros, vá lá; mas falto eu mesmo.” Terrível coisa! Entretanto, como é possível vir a cindir-se o homem?
Ora, diz o verso de Calderón de La Barca:
Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando…
E Edgar Poe:
Tudo que aos olhos se interpõe
É um sonho dentro de um sonho.
O homem não raro sonha para si uma imagem, mas poucas imagens possuem substância, senão apenas aparência. Tem olhos, mas não enxergam; ouvidos, mas não ouvem; são de matéria humana fabricados pela mão do artesão.
Este artesão é o autoengano. É uma impostura. Pode-se viver anos e décadas sob este disfarce. Mas não calar o interior, o profundo. E o que acontece ao ser a quem for desvendado a verdade?
A grande crise! Uma vida toda baseada numa criação, que sobrará dela se, de chofre, lhe for atacada, nomeada?
Em O Príncipe Frederico de Homburgo, de Kleist, lemos Hohenzollern dizer:
Chama-o pelo nome e cairá.
Isto porque cria-se que o homem em estado de sonambulismo, ao ouvir o próprio nome sendo proferido, despertaria de seus sonhos, acordando para a realidade.
O duplo recesso do homem que se exila de si, que simula e dissimula uma imagem a quem todos idolatram como o seu eu, a este homem, digo, resta apenas, como graça e redenção, a misericórdia da palavra que lhe demova do espírito toda enganação.
