ABISMO
Existe um detalhe muito importante em Crime e Castigo que, no mais das análises, costuma ser ignorado. Refiro-me à missiva que Raskólnikov recebeu da mãe.
Esta carta dizia do casamento de sua irmã, Dúnia, com um homem de posses, casamento este que tinha o fito de o ajudar.
Lembrando-se do bêbedo Marmeládov, e do sacrifício de Sônia ao prostituir-se, Rodion, de súbito, muda de atitude em relação a uma ideia…
A ideia todos a conhecemos: matar para, na posse dos bens, ser Napoleão. Contudo, até o momento descrito, esta imaginação assumia para o jovem apenas fumos de quimera.
Tratava-se, pois, dum sonho. Entretanto, há “crimes virtuais que dormem”, disse Machado de Assis. E disse bem.
À imagem da irmã prostituindo-se num casamento sem amor para o sustentar, Rodion viu aquele sonho ganhar para ele outra significação e urgência, e mais: ele já esperava por isso.
Na tradução de Oleg Almeida lemos: “O jovem sabia, pressentia que ela havia de surgir, e já estava à espera dela.”
Tremendo!
Saber, sentir, pressentir e esperar. E, todavia, em tudo parecer espontâneo. É este mesmo o mistério do pecado. Há nele uma intrincada relação, ora o enganamos, ora somos por ele enganados.
Num caso como noutro, aquela carta foi decisiva. Serviu-lhe como convite, como chamamento, como licença poética para despenhar.
Donde até os dias de hoje mostram-se certas as sagradas palavras: “Mas se não estás bem disposto, não jaz o pecado à porta, como animal acuado que te espreita; podes acaso dominá-lo?”
