A VARANDA
Tinha o hábito singular dos passeios noturnos. Era o seu estilo. Com ele, revestia-se de mistério, deleitando-se com imaginar o que diriam de si os vizinhos quando se perguntassem:
— Para onde ele vai?
Ver-se através dos olhos dos outros outorgava-lhe certos poderes; compunha assim mil possibilidades; sentia-se como um deus.
Numa dessas noites, fria e silenciosa, de cujo céu peneirava uma chuvinha miúda, encostado às paredes para evitar o chapinhar nas poças d’água — que rolavam em pequenos cachões —, ele, ao erguer a cabeça, deparou com um corpo vivo de mulher debruçado sobre a varanda.
A luz que irradiava das portas abertas encaixilhava-a como uma pintura suspensa. Vestia então camisola de dormir, um cendal de linho fino, que nada mostrava, deixando tudo entrever. Existem mesmo roupas feitas para os olhos da imaginação.
Embebeu-se um segundo daquele cálice. Mas, temendo encontrar os olhos dela, prosseguiu, perorando consigo:
— Como nunca antes a havia visto eu?
Do arrebatamento à sua casa o caminho era estreito, curto, uma ladeira e poucos metros de permeio. Quando entrou, estava absorvido.
— Onde esteve? — inquiriu-lhe a mãe, no tom judicial de todas as suas perguntas.
Ele nada respondeu. Entrou para o quarto e fechou-se no seu “microcosmo de barata”, como lhe chamava o irmão, quando se queixava dele aos pais pela falta de asseio no aposento.
Nada que poderia ter dito deixaria Eliane mais confusa. Acostumada ao ritual diário do seu Benjamim, sempre que o via entrar pela porta, esperava dele uma resposta jocosa sobre suas andanças.
Escandalizava-a pelo entretecimento de ridículos.
Desde muito, Benjamim decifrara o temperamento da mãe: nervosa, banal. Quando não conseguia satisfazer seus desejos, acusava alguém, escolhia um bode expiatório.
Se contrariada, explodia!
As expansões duravam pouco; a modorra vinha em seguida, e junto dela as atenções e cuidados dos filhos e marido.
Estas ações, as interpretava Benjamim como um circo. Recusava-se, pois, a participar delas; confrontava-as. Donde recaía sobre ele a pecha de Caim.
Os irmãos não gostavam dele. Chamavam-no insolente, brigavam, às vezes em verdadeiras demonstrações de muque, o que denotava no lar um espírito bem pouco fraterno.
A entrada dele para o quarto, portanto, abalou-a em suas mais íntimas entranhas.
— Deve ter praticado algo grave!
E, não necessitando mais do que essa ideia, estorceu-se no sofá, como se acabara de receber a confissão de um crime.
Marido e filhos socorreram-na. Supunham a fonte das convulsões da venerável matrona. Belisário, tomando na mão o cinto, entrou para o quarto do filho, que neste momento escutava música e sonhava.
Olvidou-se-lhe o sonho à pancada.
Quando o martírio arrefeceu, Benjamim, com a pele machucada, não ousou sequer chorar. Encolheu-se, o rosto contra a parede, cobriu-se e se pôs a tramar fugas e vinganças.
Subitamente, porém, lhe veio de encontro a imagem da mulher na varanda.
— Quem será ela? — perguntava-se, invocando-lhe as feições, recompondo cada parte, organizando-a num todo.
Contudo, não era mais a luz que emoldurava aquele corpo, e sim a sombra eclipsada da recordação.
— Eu a verei de novo algum dia? Estará lá amanhã, beldade de meus olhos?
Pensava nestas coisas quando adormeceu.
Na manhã seguinte, despertou ferido e ardente de esperanças. Negou-se a tomar o café. O pai o olhava envergonhado. Soube da esposa que ele nada fizera, senão entrar sem dizer palavra. Todavia, como era do seu feitio, envergonhou-se mais do arrependimento que sentia do que da surra que assestara ao filho.
Benjamim passou o dia alheio.
— Que aconteceu? — interrogou-o Inácio, amigo seu da escola.
— A mim? Nada. Por quê?
— Está aí pensando na morte da bezerra…
— Impressão sua.
De fato, à roda, o mundo todo parecia-lhe ilegível. Somente um rolo, selado pelo enigma do encontro casual, era-lhe interessante e agradável de ler. Por que não deliciar-se com a sensualidade de suas frases?
— Preciso revê-la — meditava, enquanto saia para flanar em pleno crepúsculo.
E pasmem! Ela estava lá! Não mais vestida de linho fino; recobria-a uma camisa longa, que lhe caía até os joelhos. Camisa de homem.
— De quem será a roupa que a cobre?
E como havia muita gente na rua:
— O melhor é seguir; que pensaria ela de mim se me visse aqui, parado, olhando-a com tanta concentração?
Retornou mais cedo que de costume.
— Alguma coisa está acontecendo com nosso filho — disse Eliane a Belisário, preocupada.
— Esse menino é um desmiolado! — respondeu-lhe sem muito interesse o marido.
— Iremos falar com ele, mamãe — anteciparam-se os seus filhos mais velhos.
Ao entrarem os dois para o quarto de Benjamim, dispararam contra ele:
— Que outra sandice você anda tramando para perturbar a mamãe?
— Não devo explicações a vocês.
— Você deve se sentir muito inteligente, não é? Inventa umas idiotices, mente, sussurra, desrespeita e, quando a casa pega fogo, se retrai, foge, deixando os outros para apagarem o incêndio — censurou-lhe Henrique, o mais velho.
— Achei que punha sempre panos mornos no fogaréu de doidices.
— Cuidado com o que diz. Não sou tão bonzinho quanto a mamãe.
— Eu sei disso. Você nunca se entregaria ao refúgio da epilepsia se pudesse fazer outro bater os queixos no chão.
— Tem sempre uma resposta!
— Só quando me fazem perguntas.
— Estou perdendo a paciência… Malcriado de uma figa! Não sabe falar?
— Qualquer um que tenha língua sabe falar…
Pouco durou o colóquio. Seguiu-se a ele a língua de sinais. Bofetadas, no entanto, não lhe fizeram abrir o seu segredo.
— Estão tentando me espiar pelas janelas, os xucros!
A ideia das janelas lhe trouxe de novo à mente a mulher da varanda. E já não eram janelas, mas sim portas arreganhadas, de onde se insinuava, como Vênus, aquela sua admiração de talhe delgado, firme, em pleno viço e cor.
— A camisa… Terá ela um namorado? Não, com certeza é solteira. Uma mulher comprometida não vestiria daquele modo, não carregaria de paixão os olhos de outrem… Chora alguma saudade; um morto, talvez?
Naquela noite sonhou. Era de novo criança. A mãe lhe trazia pela mão. Ambos vinham da escola. Perto, uma multidão acorria. Um acidente ceifara a vida dum homem.
— Mamãe, leva-me! Eu quero ver.
— Aquiete-se — admoestava-lhe a mãe, com piparotes.
Ele os temia, os piparotes. Deixava-o com intensas dores de cabeça. Daí o não lhe restar opção senão se aquietar. Quando, porém, aproximaram-se da chusma, notou, escorrendo pelos pés das gentes, um líquido vermelho e fumegante.
No outro dia, quando retornavam da escola, sem dar à mãe tempo de retê-lo, soltou-lhe a mão e cruzou a rua. Lá, onde na véspera dormia eternamente um corpo, estava agora uma garrafa vazia de vinho tinto.
— Então foi a garrafa que morreu, mamãe?
— Ora, mas eu…
Acordou. Seu coração estava turbado.
— Eu preciso vê-la!
É verdade que, se pudesse, teria galgado, como um atleta, o hiato entre as obrigações quotidianas e o encontro almejado. Mas não havia o que fazer senão se sujeitar…
— Que tal pousar em terra? — ironizou Horácio, um seu velho amigo, enquanto matavam aula num quiosque.
— Diga-me: já lhe aconteceu de não tirar uma pessoa da cabeça?
— Tanto quanto não tirar a cabeça de uma pessoa…
Benjamim fingiu um sorriso; guardou os sentimentos. Horácio não servia de conselheiro. Imperava-lhe, durante toda a vida, o baixo-ventre. Como haveria de o entender?
— Será que ela já me notou a mim? — remoía durante o retorno.
E conseguintemente:
— É por curiosidade que eu venho aqui. Só por isso…
Contudo, posto quisesse dissuadir as suas secretas motivações, passara a fantasiar com maior frequência. Tratava-se não mais de uma mulher fortuita; chamara-lhe Carla, dera-lhe dezoito anos, preenchera-lhe os dias com pequenos objetos e uma paixão que lhe devia curtir sempre que ele passava sob sua varanda.
Começou a persegui-la, isto é, ao seu fantasma. Pois, quando lhe via alguém semelhante, tocava a lhe seguir o rasto. Como consequência, vexava-se, dizia-se insultos e ofensas. Mas um dia aconteceu-lhe encontrá-la realmente no shopping.
Percebendo-lhe a emoção, os amigos o pilheriavam:
— Eis o sonho do sonhador!
A princípio negou; depois consentiu. Agradava-lhe ser reconhecido pelo que aspirava. Entretanto, nunca dirigiu a ela uma única palavra sequer. Não esperava nem mesmo que essa fantasia se realizasse — precisava dela tão somente para viver. Um simples despertar, e tudo seria terrível!
Mas ora, como acontece sempre aos homens de todos os tempos e lugares, aqueles que se esquivam de seus medos acabam descobrindo muito tarde que apenas enveredaram por uma senda que os levou de encontro a eles.
Foi o que aconteceu a Benjamim.
No derradeiro dia, o terceiro da semana do sexto mês, palmilhou a estrada há já muito conhecida, calculando de cabeça os passos necessários até o balcão dos seus amores…
Qual não foi o seu desgosto ao vê-lo, o balcão, completamente vazio!
— Onde está? Terá ido embora?
Sucederam duas semanas. A varanda permanecia triste, escura, sem sombra de mulher.
— Eliane, atenha-se! Benjamim anda estranho… Um passo em falso, e o que acontecerá?... — Advertia-lhe a vizinha, cujo talento de não perder ninguém de vista era célebre em toda a cidade.
Eliane, exasperada, foi encontrar o filho pateticamente prostrado, com o lençol, enxovalhado, a forrar o chão.
— Meu Deus! Como não percebi antes? — pensou ela. — É uma desilusão de amor…
Ao fitá-la, o rapaz compreendeu seu espírito. E teve pena, muita pena.
— Levante-se! Vamos ocupar a mente. Varra a calçada. Estou fazendo tudo sozinha…
Assim o fez. Quem, no entanto, pode prever os caprichos do Destino? Ali, naquele inesperado momento, enquanto apanhava do chão o plástico que os cães de rua estraçalharam, Benjamim defrontou com a mulher da varanda, descendo a rua, de braços dados com duas amigas.
Ela nem mesmo o notou.
— Alguma vez terei existido aos seus olhos? — Pensou ele, descansando os braços no cabo da vassoura.
O vizinho ao lado consertava a porta; crianças jogavam bola na rua.
— Que figura faço a todos eles em suas imaginações?...
Caíra-lhe, por um segundo, o véu. O encanto que sentia, em achar-se o centro, desapareceu em fumo leve, de incensório, a desmanchar-lhe os cômodos suspensos de seu edifício imaginário.
Em realidade, poderia ter lhe sobrevindo uma mudança total, transformando-se num homem novo, alguém a curar o câncer ou peregrinar pelo mundo semeando a concórdia… Felizmente tinha ainda a mãe. E, ao relembrar aqueles olhos de tinta que o sentenciaram a erguer-se, sentiu pingar em sua mente uma elucidação:
— Pelo menos minha mãe compreende que sou um desafortunado amoroso! E é muito triste sofrer!... Devo aguentar isso, por um tempo… Viver meu luto, conforme dizem… O que pensará de mim o papai?

Muito bom.
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