A FLOR AMARELA
Já notaram que os dramas russos do século XIX se parecem muito mais com os nossos problemas atuais do que os dos romances brasileiros do mesmo período?
Isso ocorre porque, do mesmo jeito que a Rússia daquele tempo, nós atualmente estamos inseridos num vaudeville eterno em que tudo se resume às disputas estudantis e revolucionárias, vivendo eternas contrações, para a qualquer momento dar à luz um novo e perfeito dia.
Ora, se pegarmos, por exemplo, um romance de José de Alencar e um de Dostoiévski, parecer-nos-á que este último fala direto conosco, enquanto o primeiro parece apenas tratar de coisas velhas. Crime e Castigo é mais real, para nós outros, do que Senhora.
Neste romance uma mulher casa-se com um homem sem amor, deixando clara as condições dela de que nunca a poderia possuir nem amar. É um drama humano que parece coisa de novela. As mulheres hoje estão emancipadas, e se quiserem pisar num homem, nem precisarão de casamento, basta acusá-lo de alguma coisa ou postar um vídeo no instagram.
Mas qual é o problema disso? Isto é, de que estamos imaginativamente tão distantes da nossa tradição literária? Escusemos a questão da língua, cousa de que já tratei até me fartar. Dito isto, o problema maior é que, psicologicamente, não somos tão parecidos com os russos.
A alma russa, por assim dizer, é um abismo. A santidade e a monstruosidade andam sobre uma corda bamba. Leram O Idiota? Está tudo ali. Bondade e maldade aos extremos. Isso é o russo. Mesmo os mesquinhos são mesquinhos requintados. Vide o homem do Subsolo.
O brasileiro, entretanto, é diferente. É melancólico, mas ri de sua melancolia. É a tinta da galhofa, como diria Machado. Demais, somos almas mornas. As paixões em nós são menos ardentes. São paixões eclipsadas por uma sombra que faz chorar os dias tristes e embevece os de arroubo.
A compreensão, portanto, do dilema particular é indispensável para a penetração daquilo que a alma nacional comunga com a alma humana de todos os tempos. Isso não quer dizer que devemos ler somente Alencar. Não se trata de ufanismo.
Contudo, devemos conhecer as particularidades de nossa tradição literária, caso contrário sofreremos para sempre daquilo que Euclides da Cunha disse de nossa pachorra moral: uma inércia cômoda de mendigos fartos.

Muito interessante. Boa análise
Perfeito